quarta-feira, 16 de julho de 2008

MARÇO, UM SÓ

Quando os caminhões voltaram da roça
E as mulheres que tinham ido cortar arroz
Na várzea batiam na cabina e pediam para o chofer
Pelo amor de Deus não passe no jardim
(deveras florido) porque levavam
Aquela certeza carnal, suor e pó,
Elas que cortaram arroz e apanhavam algodão
E quebravam milho e que sabiam cortar o sol
Nos espelhos, como fazem as grandes damas,
Após o banho, à tarde. Março, um só,
Quando aquelas pobres mulheres, virgens,
Em cima daqueles caminhões gigantes
Tinham vergonha de seus braços, de suas mãos
E de seus lábios, tinham vergonha do amor
Que podiam oferecer ao mais insignificante dos
Homens e recusavam-se a sorrir
Pelo amor de Deus não passe, não passe.

Um comentário:

נחמיה יצחק disse...

Belissimo

Nao sei se aplaudes o MST ou nao,mas ao ler foi o que visualizei...

o drama e necessidade da reforma agraria, a luta, labuta e a rotina da mulher no campo

com toda poesia, com toda rudeza da realidade

eles se vão
As vezes eles voltam ao campo

As vezes
Apenas as vezes,por que nos perdemos (na falta de sonho?)a cada rotina